Seu imóvel perdeu valor e você nem percebeu
- Mario Fernandes
- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

"Imóvel nunca desvaloriza". Quantas vezes você já ouviu essa frase? A crença de que investir em imóveis é sempre um caminho seguro para proteger patrimônio está enraizada no imaginário brasileiro. Mas quando olhamos os números com a lente correta ajustados pela inflação, a realidade se mostra bem diferente do que muita gente imagina.
O truque está nos números
Quando falamos em valorização imobiliária, é essencial distinguir preço nominal de preço real. O preço nominal é aquele que aparece nas placas de venda, em reais correntes. Já o preço real é o valor ajustado pela inflação, medida pelo IPCA, calculado pelo IBGE. Em outras palavras: o preço real mostra quanto poder de compra você precisa de fato para adquirir aquele imóvel.
Essa diferença é crucial. Um apartamento que custava R$ 300 mil em 2010 e hoje custa R$ 500 mil pode parecer mais caro. Mas se a inflação acumulada no período foi superior a 66%, na prática, o imóvel está desvalorizado em termos reais. EX:
Imagine que você tem uma casinha de Lego.
Antigamente, você vendeu essa casinha por 3 moedas.
Naquela época, cada sorvete custava 1 moeda.
Conta: Com as 3 moedas, você foi na loja e comprou 3 sorvetes.
O tempo passou e você achou outra casinha igualzinha para vender.
Hoje, você vendeu a casinha por 5 moedas.
"Uau! 5 é maior que 3! Fiquei mais rico!"
Mas... espere! O preço do sorvete também mudou (isso é a inflação). Agora, o sorvete custa 2 moedas.
Vamos ver quantos sorvetes dá para comprar agora com suas 5 moedas?
Você compra o primeiro sorvete (sobraram 3 moedas).
Você compra o segundo sorvete (sobrou 1 moeda).
Com 1 moeda, não dá mais para comprar sorvete inteiro.
Resultado: Hoje você só consegue comprar 2 sorvetes e meio.
A Lição:
"Antes você tinha menos moedas, mas comia mais sorvete. Hoje você tem mais moedas (5), mas come menos sorvete. Isso significa que, de verdade, sua casinha vale menos agora, mesmo custando mais moedas."
A trajetória que poucos conhecem
Segundo o Índice FipeZAP, que acompanha o preço médio do metro quadrado em capitais brasileiras desde 2008, a história recente do mercado imobiliário brasileiro tem três capítulos bem definidos.
Primeiro ato: a euforia (2008–2014). Nesse período, os preços reais dispararam. Crédito farto, economia aquecida e programas habitacionais impulsionaram a demanda. As capitais registraram valorizações expressivas, criando a sensação de que o mercado era imbatível.
Segundo ato: a ressaca (2015–2016). A recessão econômica freou bruscamente o mercado. Desemprego crescente, crédito escasso e incerteza política fizeram os preços reais despencarem. O ajuste foi severo e muitos proprietários viram seus imóveis perderem valor real mesmo enquanto os preços nominais se mantinham ou subiam timidamente.
Terceiro ato: pandemia e recuperação lenta (2020–2025). A crise sanitária trouxe nova desvalorização real em diversas capitais. A recuperação posterior tem sido desigual: enquanto algumas cidades voltaram a crescer, outras ainda patinam muito abaixo dos patamares de 2014.
O retrato por cidade é revelador
Os números regionais mostram realidades bastante distintas. Em São Paulo, o preço real do metro quadrado em 2025 equivale ao que era praticado lá em 2011 — ou seja, 14 anos de estagnação em termos de poder de compra necessário para comprar.
No Rio de Janeiro, a situação é ainda mais dramática: queda real de 44% desde o pico.
Comprar um imóvel na capital fluminense hoje exige menos da metade do poder de compra que se precisava no auge do mercado.
Brasília registra desvalorização real de 33%. Porto Alegre também apresenta quedas significativas em relação aos valores históricos ajustados pela inflação.
Mas nem tudo é queda. Vitória destoa completamente do cenário nacional, com valorização real de 35% desde 2015. A capital capixaba hoje ostenta o metro quadrado mais caro do Brasil algo impensável há uma década. Florianópolis também segue na contramão, com alta real de 23%. Maceió e Curitiba apresentaram valorizações consistentes no período pós-pandemia.
O que os dados realmente dizem
A conclusão é clara: comprar imóvel hoje, em muitas das principais capitais brasileiras, exige menos poder de compra do que há dez ou quinze anos. A narrativa do "imóvel como investimento garantido" simplesmente não se sustenta quando colocamos a inflação na conta.
Claro, imóvel continua sendo patrimônio tangível, protege contra alguns riscos e pode gerar renda com aluguel. Mas como investimento de valorização? Os números mostram que, em termos reais, muitas cidades ainda não recuperaram o que perderam e algumas talvez nunca recuperem.
Seu imóvel parado é dinheiro perdido
"Vou esperar valorizar para vender." E se a valorização real nunca vier? Os dados mostram que em muitas capitais isso já é realidade há mais de uma década.
"Prefiro deixar fechado a alugar e ter dor de cabeça." Enquanto isso, você paga IPTU, condomínio e manutenção — transformando um possível ativo em passivo garantido.
"Imóvel é meu único investimento seguro." Concentrar tudo em um único ativo é o oposto de segurança. Diversificação protege seu patrimônio de verdade.
A solução existe: transforme esse imóvel em renda mensal constante e diversifique seus investimentos. Locação gerenciada ou outras alternativas podem se encaixar melhor no seu perfil.
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